Internet quântica: o que é e por que pode mudar a comunicação?

Quando se fala em internet quântica, é fácil imaginar uma versão futurista da internet que conhecemos, só que ultrarrápida. Não é bem isso. A ideia aqui não é substituir a rede atual, mas acrescentar uma nova camada de comunicação, capaz de transportar estados quânticos entre computadores, sensores e servidores distantes.
Em julho de 2026, essa camada passou no teste mais hostil possível. Pesquisadores da Northwestern University fizeram fótons emaranhados atravessarem 24,4 km de fibra entre o campus de Evanston e o centro de Chicago, no mesmo cabo entupido de tráfego comercial.
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Autor sênior do estudo, o físico Prem Kumar, comparou o sinal quântico a uma formiga atravessando um caminho invadido por elefantes. A criaturinha chegou inteira: o emaranhamento sobreviveu com mais de 94% de fidelidade.
Mas é aí que a expectativa costuma flopar: muita gente imagina downloads mágicos ou mensagens mais rápidas que a luz. A segunda hipótese não é uma questão de tecnologia ainda imatura — a física simplesmente não permite.
Confira, a seguir, o que é a internet quântica, como ela funciona de verdade, onde ela já existe (inclusive no Brasil) e o que muda na segurança das comunicações.
O que é a internet quântica?
A internet quântica é uma rede que transporta estados quânticos no lugar de bits — os qubits, que não precisam ser 0 ou 1. Ela não roteia pacotes que podem ser copiados, conferidos e reenviados: entrega, na verdade, uma partícula em cada ponta e usa a ligação entre elas como recurso de trabalho.
O curioso dessa história é que a infraestrutura está saindo na frente das máquinas. A China já opera mais de 4.600 km de comunicação quântica voltada à segurança, e o Recife tem 7 km rodando sob o asfalto desde 2023 — enquanto os computadores quânticos ainda operam em escala experimental.
Ou seja, o cabo está sendo puxado antes de a máquina existir. No Recife, o Instituto Quanta trabalha para inverter essa ordem: conectar à rede já instalada um computador quântico fotônico de 10 qubits.
Qual é a diferença entre internet quântica e internet comum?
A principal diferença entre a internet quântica e a internet comum não está na velocidade para abrir sites, mas na forma como a informação é codificada e transmitida — e no nível de segurança que isso permite.
Imagine o caminho que um áudio do WhatsApp percorre até chegar aos nossos celulares — ele é “fatiado” em pacotes menores, cada um com um cabeçalho dizendo de onde veio, para onde vai e qual é a ordem dele na fila. Se um pedaço se perde, o celular simplesmente pede de novo.
Na internet quântica, essa lógica se inverte: você está entregando uma coisa extremamente delicada, que só existe enquanto ninguém abriu, e que morre na primeira espiada — inclusive na de um possível hacker.
Como ler destrói o estado, não há como conferir e reenviar: o original se apaga quando o envelope é aberto.
Como funciona a internet quântica?
Tudo começa com um dispositivo que gera dois fótons emaranhados (ligados por uma relação quântica) ao mesmo tempo e envia cada um deles para um lado da rede.
Só que o fóton se perde no caminho, e quanto mais longa a fibra, maior a chance de ele não chegar. É aí que entram as memórias quânticas, que guardam o estado até o trecho seguinte estar pronto para recebê-lo.
Depois, entra em cena a troca de emaranhamento, uma espécie de emenda que permite estender o emaranhamento por vários trechos da rede, alcançando pontos mais distantes.
E tem um detalhe que costuma surpreender: a rede quântica não funciona sozinha. A informação chega embaralhada do outro lado, e só a internet comum leva a instrução de como desembaralhá-la. Sem esse aviso, o que chegou não passa de ruído.
O que é emaranhamento quântico?
Emaranhamento é uma ligação entre duas partículas que faz o resultado da medição de uma corresponder ao resultado da outra, mesmo distantes. Medir uma define a outra no mesmo instante.
Mas tem uma pegadinha: ninguém escolhe o resultado da medição. Ele surge de forma aleatória. Por isso, quem está do outro lado não consegue saber, apenas olhando para sua própria partícula, se a outra já foi medida. É preciso comparar os resultados por um canal de comunicação convencional.
O emaranhamento, sozinho, não transmite mensagem alguma. O que existe entre as duas pontas é correlação, não comunicação.
Como funciona o teletransporte quântico?
O teletransporte quântico transfere o estado exato de um qubit de um ponto a outro sem mover a partícula, usando emaranhamento e comunicação clássica. Ao contrário do que aparece na ficção científica, nada de matéria viaja: a partícula original é destruída no processo, e o “gêmeo” distante assume a identidade dela.
Em janeiro de 2026, a Deutsche Telekom e a americana Qunnect fizeram teletransporte quântico por 30 km de fibra em Berlim, na rede comercial da operadora.
Para que a internet quântica poderá ser usada?
As aplicações aparecem quando a internet quântica deixa de ser apenas uma rede e passa a funcionar como parte da própria tarefa:
- Somar computadores quânticos: ligar máquinas distantes para que trabalhem como um processador só, contornando o limite de qubits de cada uma;
- Distribuir chaves de criptografia: gerar senhas idênticas nas duas pontas, impossíveis de copiar no caminho sem deixar rastro;
- Computação cega: usar um computador quântico remoto sem revelar a ele nem os seus dados nem o que você está calculando;
- Sincronizar relógios atômicos: manter máquinas distantes no mesmo compasso, o que interessa a redes financeiras e a sistemas de navegação;
- Afiar sensores: telescópios e detectores sísmicos emaranhados enxergam detalhes que, isolados, não captariam.
Quais são as vantagens e os riscos da internet quântica?
As vantagens da internet quântica são reais, mas ainda não podem ser aproveitadas plenamente: a tecnologia necessária para construir redes quânticas grandes não existe em escala comercial.
Vantagens:
- Segurança apoiada em leis da física, e não na dificuldade de resolver uma conta matemática;
- Aproveitamento da fibra já enterrada nas cidades, sem obra nova;
- Proteção que não envelhece com a chegada de computadores mais potentes.
Riscos e limitações:
- Alcance curto: o fóton se perde na fibra, e a perda cresce rápido com a distância;
- Taxas baixas: na demonstração da Qunnect com a Cisco, em fevereiro de 2026, a fibra instalada rendeu 5.400 pares por hora — contra mais de 1,7 milhão em laboratório;
- Peças ainda imaturas: memórias e repetidores quânticos seguem em desenvolvimento;
- Equipamento sensível a vibração, calor e interferência — condições normais de qualquer cidade;
- Escopo limitado: a distribuição quântica de chaves (QKD) protege o transporte da senha, não o sistema inteiro;
- Promessa maior que a entrega: o rótulo “quântico” já virou argumento de marketing, como aconteceu antes com a inteligência artificial.
Enquanto a internet quântica ainda é um projeto de longo prazo, a principal linha de defesa hoje é a criptografia pós-quântica (PQC): algoritmos matemáticos feitos para resistir a computadores quânticos, rodando só em software.
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Como está a internet quântica hoje?
Os testes de 2026 já saíram do laboratório. O NIST, instituto de padrões e tecnologia dos EUA, distribuiu fótons emaranhados por 62 km de fibra comercial entre Gaithersburg e a Universidade de Maryland — boa parte pendurada em postes, exposta a vento, calor e até pássaros pousando no cabo.
Na China, a corrida é por distância. Uma equipe da Universidade de Ciência e Tecnologia da China (USTC) manteve duas memórias quânticas emaranhadas a 420 km de distância, mais de quatro vezes o recorde anterior.
O Brasil entrou pela porta do Recife. Pesquisadores da UFPE e da UFRPE usam ali os mesmos protocolos adotados pelas principais redes do mundo — e provaram que eles resistem ao calor e às vibrações de uma metrópole. A meta é chegar a 40 km, conectando parceiros do Porto Digital.
O que esperar do futuro da internet quântica?
O próximo salto depende dos repetidores quânticos, capazes de estender a rede sem destruir o emaranhamento. Em fevereiro de 2026, uma equipe liderada por Jian-Wei Pan, da Universidade de Ciência e Tecnologia da China (USTC), manteve o emaranhamento entre memórias quânticas separadas por 10 km de fibra durante 550 milissegundos — mais do que os 450 ms necessários para criar a conexão seguinte.
Com essa margem, um trecho consegue segurar a ligação até o vizinho ficar pronto, e aí os dois se emendam.
Outra aposta está no espaço. Um enlace de QKD em tempo real entre China e África do Sul cobriu 12.900 km via microssatélite Jinan-1, e missões como a Q4S, da Boeing, pretendem demonstrar emaranhamento em órbita.
O cenário mais provável para a próxima década é híbrido: redes quânticas metropolitanas para usos críticos, conectadas por satélite e convivendo com a internet clássica.
A internet quântica carrega uma contradição curiosa: quanto mais delicado é o sinal, maior pode ser a segurança que ele oferece. A mesma fragilidade que ajuda a denunciar uma tentativa de espionagem também é o que trava a expansão da rede.
Por isso, talvez a pergunta não seja quando ela vai substituir a internet atual. Mas sim se o custo astronômico para construí-la compensa o retorno financeiro real, uma vez que a criptografia pós-quântica resolve o problema da segurança por uma fração do preço.
Gostou de conhecer melhor essa nova camada de comunicação que, tecnicamente, nem internet é? Continue explorando as novidades sobre tecnologia quântica no TecMundo e teletransporte esta matéria para as suas redes sociais.
Fonte da notícia: Novidades do TecMundo https://www.tecmundo.com.br/ciencia/415696-internet-quantica-o-que-e-e-por-que-pode-mudar-a-comunicacao.htm
Jorge Marin



