IA sem Aperreio

Nove lições para entender como o digital mudou de vez as eleições no Brasil

Só para assinantesAssine UOL<!–>–><!–>
–>

<!–>Opinião
–>

Nove lições para entender como o digital mudou de vez as eleições no Brasil

<!–>

<!–>

–>

<!–>

–>

<!–>

No discurso da vitória, logo após a sua eleição para um quarto mandato presidencial, Lula (PT) fez um agradecimento especial ao deputado federal André Janones (Rede-MG), que havia passado as últimas três semanas administrando um canal de WhatsApp chamado “Exército do Lula”. Para muita gente, foi ali que a eleição foi ganha.

–>

Passada a comoção sobre o resultado, com vitoriosos e derrotados se reposicionando, é preciso fazer um primeiro balanço sobre o papel do digital nessa eleição e quais rumos o debate pode tomar no governo Lula 4. E, desde já, vale a advertência: reeleição não necessariamente significa continuidade.

<!–>

A centralidade que o digital alcançou, e a forma como a vitória de Lula foi construída, podem indicar uma mudança nos ventos. Alguns temas devem ganhar fôlego e outros podem perder espaço diante dos novos contextos, aqui e lá fora.

–>

<!–>

–>

<!–>

–>

Seguem nove lições que ajudam a entender o que acabou de acontecer e o que pode vir logo à frente.

<!–>
–>

1 – Janones deu aula de mídia digital

<!–>

Imagem
Imagem: Reprodução
–>

O canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, tinha cerca de 55 mil integrantes ao fim do primeiro turno. Em três semanas, chegou a 10 milhões de seguidores e virou um dos canais mais seguidos do país.

<!–>

No canal liderado por Janones, os inscritos eram bombardeados o dia inteiro com missões de compartilhamento de conteúdo e dicas sobre como não engajar com conteúdos do candidato adversário – tudo para recalibrar os algoritmos das redes sociais.

–>

Para acompanhar a novela da vida real, muita gente precisou entender o que é um canal, por que ele fica numa aba separada das conversas, o que significam alcance e engajamento e como uma plataforma distribui conteúdo. O resultado foi uma capacitação expressa em meios digitais para um público que, de repente, passou a falar sobre algoritmos e mobilização digital.

<!–>

Continua após a publicidade

Distribuindo missões e mensagens motivacionais do tipo “não durma agora!” e “explode!”, Janones liderou uma das maiores experiências de LARP (live action role-playing) da história do Brasil, com milhões de pessoas incorporando o papel de “soldados” com o propósito de virar a eleição.

–>

Exaustos, hoje esses 10 milhões de veteranos de guerra formam um grupo importante para qualquer mobilização futura. Mas será que esse exército é tão bom na defesa quanto foi no ataque?

<!–>

2 – Mobilizar para vencer não significa governar

–>

O protagonismo de Janones tende a ofuscar uma distinção importante. A estratégia que funciona para o enfrentamento eleitoral, feita de urgência, adversário claro e prazo final, não é necessariamente a que coloca um governo para rodar.

<!–>

O digital virou central, e o próprio Lula prometeu ampliar o espaço da comunicação digital no governo. Mas a gestão das pautas do digital da porta para dentro requer outras habilidades.

–>

Regular plataformas, organizar dados públicos, contratar e supervisionar inteligência artificial no serviço público e negociar com empresas estrangeiras exige estratégia, corpo técnico e articulações. Nada disso se resolve com um canal de 10 milhões de seguidores, mas o grupo pode ser útil para comunicar as pautas sobre a gestão do digital, mantendo a atenção ligada em temas pelos quais as pessoas passaram a se interessar.

<!–>

Continua após a publicidade

–>

3 -Moderação de conteúdo e distribuição

<!–>

Durante anos, a pergunta central foi o que pode ou não permanecer no ar. Nessa eleição, as disputas mais acirradas giraram em torno de outra questão: a de quanto alcance cada conteúdo acabou tendo.

–>

Debates sobre o número de visualizações de vídeos do deputado Nikolas Ferreira (PL) e a distribuição de anúncios a partir da conta oficial do presidente Lula trouxeram o funcionamento dos algoritmos de recomendação e exibição de conteúdos para o centro da mesa. Depois que o STF redesenhou a responsabilidade das plataformas pelo que os usuários publicam, a próxima fronteira parece ser a “observabilidade” dos padrões de distribuição de conteúdos nas redes.

<!–>

4 – ‘Vamos ter que regular’, mas regular o quê?

–>

No discurso da vitória, Lula disse que a eleição exigiu vencer uma intromissão vinda de fora por meio de plataformas digitais e que será preciso regulá-las. A frase rendeu manchetes, mas o terreno já não é o de 2023.
O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) Digital está em vigor, o STF (Supremo Tribunal Federal) redefiniu a responsabilidade das plataformas sob o Marco Civil e vieram os decretos de regulamentação. A agenda de moderação de conteúdo, que travou o PL 2630 (chamado de “PL das fake news”), foi em alguma medida resolvida por outras vias.

<!–>

O que deve entrar em cena agora são o PL 4.675/2025, que dá ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) instrumentos para supervisionar plataformas de “relevância sistêmica”, e o PL 2338/2023, sobre inteligência artificial. O primeiro já teve urgência aprovada, e o segundo já foi aprovado pelo Senado, esperando novo parecer na Câmara.

–><!–>

–>

Continua após a publicidade

<!–>

5 – O quanto Congresso entrará nas pautas do digital

–>

Nikolas Ferreira (PL-MG) foi reeleito deputado federal com a maior votação da história
Nikolas Ferreira (PL-MG) foi reeleito deputado federal com a maior votação da história Imagem: Reprodução

<!–>

Nikolas Ferreira superou três milhões de votos e se tornou o deputado federal mais votado da história. Em segundo lugar ficou Lucas Pavanato (PL), youtuber e vereador paulistano, também eleito para a Câmara dos Deputados. Os dois construíram suas carreiras na lógica do engajamento, e não estão sozinhos na próxima legislatura.

–>

Isso muda a natureza do debate regulatório. Regras sobre alcance, monetização, transparência algorítmica e responsabilidade das plataformas serão votadas por parlamentares cuja força eleitoral depende exatamente dessas variáveis. Quem vive do algoritmo terá, naturalmente, opiniões sobre o que pode ser feito com ele.

<!–>

Os projetos apoiados pelo governo na área, como o de mercados digitais e o de IA, podem encontrar mais resistência. Ao mesmo tempo, fica a pergunta se essa nova bancada do digital teria apetite para entrar na definição do regime de responsabilidade de plataformas que saiu da decisão do STF de 2025. Ou mesmo se alguma linguagem da medida provisória editada no governo Bolsonaro – que dizia que as plataformas precisavam de “justa causa” para moderar – pode reaparecer nos debates legislativos.

–>

6 – TSE regulou com eleições em andamento

<!–>

O caso do Exército do Lula mostrou que as regras sobre o digital foram revisitadas durante as eleições. O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e ministro do STF, Kassio Nunes Marques, suspendeu o canal e, horas depois, o corregedor recolocou a página no ar. Veio nova suspensão, um registro do canal como meio oficial de campanha e, por fim, uma liminar impedindo que a presidência da Corte restringisse o canal pela via administrativa.

–><!–>

–>

Continua após a publicidade

<!–>

Às vésperas da votação, circulou uma minuta para proibir propaganda em canais com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores ao pleito.

–>

No meio do caminho, a Justiça Eleitoral passou a decidir sobre cadastro, alcance e funcionalidades de uma ferramenta do WhatsApp, quase sempre por decisões monocráticas e sob urgência. A lição que fica para 2028 é que as regras sobre a arquitetura das plataformas precisam estar postas antes da campanha, debatidas e votadas em plenário, e não improvisadas na reta final do segundo turno.

<!–>

O desgaste com a guerra de decisões monocráticas, crítica que já pesava sobre o STF, agora atinge também o TSE e fragiliza a corte responsável por zelar pelo processo eleitoral.

–>

7 – Manipulação por IA não se confirmou

<!–>

O ano eleitoral começou sob o signo da inteligência artificial. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, alertou que uma deepfake lançada na véspera do segundo turno poderia alcançar milhões de pessoas antes de qualquer decisão judicial. O tribunal atualizou suas resoluções e, em setembro, fixou critérios para caracterizar deepfake na propaganda eleitoral.

–>

O balanço do uso de conteúdo sintético nessas eleições ainda está por ser feito, mas, até aqui, o tsunami da manipulação por IA não se confirmou. A inovação que marcou a reta final foi tecnicamente mais simples: um canal de transmissão no mais popular aplicativo de mensagens. Enquanto o debate público olhava para o futuro, a disputa se deu em uma ferramenta lançada faz alguns bons anos.

<!–>

Continua após a publicidade

–>

8 – Fandoms chegaram para ficar

<!–>

Poucas horas depois do primeiro turno, perfis que normalmente divulgam shows e lançamentos de seus artistas favoritos colocaram suas estruturas à disposição da campanha de Lula. O movimento reuniu mais de cem fã-clubes, de Anitta a BTS, com cartilhas de abordagem a eleitores e publicações sincronizadas por horário. Quem já viu um fandom subir uma hashtag na estreia de um clipe reconheceu o método.

–>

Representantes de fã-clubes foram recebidos no Planalto durante a assinatura de decretos contra o cambismo digital na venda de ingressos. Um eleitorado jovem, organizado e acostumado a cobrar resultados entrou na política e fez a diferença nos esforços de mobilização.

<!–>

Fãs de K-pop já haviam se mobilizado contra Donald Trump nas eleições norte-americanas, reservando ingressos para um comício e depois não indo, o que ajudou a deixar vazios setores inteiros do estádio.

–>

Quando o BTS se apresentou em São Paulo na semana seguinte às eleições, não faltaram vídeos de fãs trocando a letra da música “Black Swan” por “Bolsonaro é louco / Eu sou Lula / Jump, jump jump!”

<!–>

9 – Reeleição não é sinônimo de continuidade

–>

O discurso da vitória deu as pistas. Lula enquadrou a regulação das plataformas como resposta a uma ingerência externa, falou em cobrar mais das big techs e em produzir mais conteúdo próprio para as redes.

<!–>

Continua após a publicidade

–>

A soberania digital, que no terceiro mandato circulava em documentos de governo, subiu ao palanque e agora pode ser uma das âncoras do novo mandato.

<!–>

Um governo que se reelegeu de virada, impulsionado por mobilizações nas ruas, por um canal de WhatsApp e por fã-clubes de música pop, tende a governar com outra gramática.

–>

Resta saber como se dará o cabo de guerra com uma oposição mobilizada no Congresso, agora que a relação com Washington volta a entrar em cena. O governo Lula 4 pode até manter parte do elenco, mas o roteiro deve mudar, tendo em vista a centralidade do digital e o contexto da suada vitória.

<!–>

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

–>

Defenda a verdade

Publicidade

Deixe seu comentário

<!–>

O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.

–>

<!–>

As mais lidas agora

–>

Fonte original: www.uol.com.br

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo