A tecnologia que surge na nossa adolescência e nossa visão de mundo

Me interessa hoje pensar a respeito do efeito concreto na construção de nossa perspectiva quando essas tecnologias se tornam o principal instrumento através do qual se constroem nossas atividades sociais, profissionais, acadêmicas e culturais.
Porque um ponto adicional – e, quem sabe, mais importante – para o debate é: ter consciência desse potencial efeito nas décadas anteriores talvez nos ajude a pensar no tipo de uso que queremos dar para a tecnologia que está formando a geração dessa década (para você não ter que rolar a página de volta, me refiro à IA). E pode ser que esteja aí a oportunidade de que ela se torne, finalmente, um instrumento para o bem comum, em vez de uma realidade incontornável que nos molde outra vez à sua imagem.
Há, aqui e ali, algo sendo discutido a respeito do uso da inteligência artificial como recurso amplo de serviço à humanidade. Mas o ritmo com que tudo se dá ainda torna difícil para qualquer pessoa fora da pequena bolha onde esse debate acontece, participar de forma crítica e consciente. Gastamos tempo demais aprendendo a fazer prompts eficientes e deixamos de discutir os princípios e fundamentos que deveriam reger o desenvolvimento de uma ferramenta de poder transformador tão profundo.
Quando comecei a trabalhar, aos 15 anos, no escritório de um banco nos arredores da Praça da República, eu era office boy em um departamento de investimentos. Em cada andar do prédio, havia um computador – só um – conectado à internet. Sentar naquela mesa para “surfar na web” era um evento a ser agendado com antecedência. Na frente daquela tela colorida, browser aberto, a gente mal sabia o que fazer, mas tudo parecia mágica. Eu só sabia fazer duas coisas: acessar o UOL para ler notícias e procurar pelo site dos Beastie Boys para saber quando iriam lançar o próximo álbum.
Era Beastie Boys que tocava no som do meu carro há algumas semanas, quando estava parado em um trânsito do tipo que você bem sabe aqui em São Paulo e Cecília, aos 11 anos, estava entediada ao meu lado. Eu tamborilava os dedos no volante ao som de “Sabotage” e ela contemplava o rio Pinheiros pela janela. Aumentei o volume em três níveis e balançava a cabeça ao ritmo das batidas (o gesto que mais se aproxima da definição de dança, para mim) quando ela soltou:
– Pai, assim, só um comentário? mas toma cuidado quando você escutar esse tipo de música.
Fonte da notícia: UOL Tecnologia https://www.uol.com.br/tilt/colunas/luiz-henrique-matos/2026/07/31/a-tecnologia-que-surge-enquanto-somos-adolescentes-molda-nossa-perspectiva-de-mundo.ghtm



