A diferença de 20 anos na expectativa de vida entre bairros de SP é real?

Todo ano, ficamos sabendo que há uma diferença enorme na expectativa de vida entre bairros de São Paulo, que dizem chegar a 20 anos!
Mas de onde vem esta afirmação? E como isto é calculado? Já vou dando um spoiler: não se trata de expectativa de vida. É um caso exemplar no qual uma informação original é distorcida. O mais inusitado de tudo? Não é uma desinformação na fonte, mas sim da parte de quem reproduz.
Tudo começa no Mapa da Desigualdade, publicado pela Rede Nossa São Paulo desde 2014, que mede as diferenças de uma série de métricas entre os bairros de São Paulo. Na edição de 2016, houve a inclusão do indicador “Idade Média ao Morrer”. Como o próprio nome diz, é uma média simples: soma-se a idade de todas as pessoas que morreram no bairro (ou distrito) e divide-se pelo total de óbitos.
Na edição mais recente (2025), o ranking estava assim:
Top 5:
5 mais baixos:
Mas algo me incomodava: por algum motivo, este número era citado como expectativa de vida – não pela entidade que gerou o relatório (que sempre explicitou como média de idade ao morrer), mas por vários veículos de mídia e outras entidades.

Vista da região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão
A expectativa de vida ao nascer demanda um cálculo bem mais complexo que a idade média ao morrer. Ela leva em consideração as tábuas de mortalidade que demandam, além das informações de óbitos, o total de nascimentos no ano.
E qual a expectativa de vida ao nascer nestes distritos? A diferença é tão grande quanto os 20 anos que separam a idade média ao morrer de Cidade Tiradentes do Alto de Pinheiros?
Este número não está disponível para o ano de 2025, mas, no documento “Indicadores Sociodemográficos da População Idosa residente na cidade de São Paulo”, publicado pela Prefeitura em 2020, consta a expectativa para o ano de 2017.
Nele, temos o seguinte panorama para os 5 distritos nos extremos superior e inferior:
Top 5:
5 mais baixos:
Perceba que lá em 2017 a diferença entre a maior e a menor expectativa de vida era de 14 anos – contra uma diferença de 20 anos entre a maior e a menor idade média ao morrer (em 2025). E é esperado que os valores não coincidam, afinal, são duas métricas distintas.
No caso da idade média ao morrer, a composição demográfica daquele distrito influencia no resultado. Isto acaba levando a distorções, pois há bairros com uma população idosa muito maior que outros – por exemplo, no Alto de Pinheiros, os maiores de 60 anos representam 30% da população, contra apenas 11% no Jardim Ângela.
Automaticamente, em bairros mais idosos teremos uma proporção maior de pessoas idosas entre os óbitos, puxando a média para cima. O inverso também vale: em bairros jovens, haverá menos idosos falecendo, o que puxa a média para baixo. Já na expectativa de vida, a composição etária não afeta o resultado.
Não há problema conceitual nos valores calculados pela Prefeitura de São Paulo e tampouco pela Rede Nossa São Paulo, mas é muito comum ver as duas métricas sendo usadas de forma intercambiável, o que acaba se refletindo até mesmo nas respostas obtidas por ferramentas de IA (que às vezes alertam para o fato de os 20 anos ser a diferença entre extremos de um outro indicador, mas outras vezes indica que é a diferença de expectativa de vida). O problema está na forma como a IA coleta seus dados: quando há suficiente embasamento online para uma determinada interpretação, isto pode ser propagado como embasamento sólido.
Em outras palavras, as fontes primárias usam os nomes corretos das métricas (expectativa de vida e idade média ao morrer), mas algumas fontes secundárias reproduzem os números da idade média ao morrer como sendo da expectativa de vida, o que não deixa de ser desinformação (no meu entender, uma desinformação não-proposital, algo que não tem um termo específico em português, diferente do inglês, no qual isto é chamado de misinformation).
De toda forma, mesmo na expectativa de vida ao nascer as diferenças entre extremos são significativas, o que mostra o quanto condições socioeconômicas e de infraestrutura urbana têm influência nesta métrica. Um exemplo é a mortalidade infantil: varia de 3 a cada mil nascidos vivos na Lapa até 14 a cada mil nascidos vivos em São Miguel Paulista.
A mensagem que quero deixar é: as diferenças entre distritos da capital paulista existem, sim, mas para uma análise conceitualmente adequada devemos chamar as métricas pelos seus nomes corretos, sem trocar um pelo outro.
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Fonte da notícia: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://www.estadao.com.br/tecmundo/frankito-o-curioso/a-diferenca-de-20-anos-na-expectativa-de-vida-entre-bairros-de-sp-e-real/
Franklin Weise



