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Nunca Vi 1 Cientista: do doutorado ao combate às fake news

Em 2018, duas mulheres, Laura e Ana, viam o aproximar da data do fim do seus respectivos doutorados. Quem nunca passou por isso talvez não imagine a aflição da pergunta que vem constantemente à mente de um pesquisador neste momento: “E agora, o que vou fazer daqui para frente?”.

Um dia o cientista é o futuro do país, e no dia seguinte à defesa da tese, ele é um desempregado (não que antes disso ele fosse empregado no sentido formal da palavra, porque no Brasil o trabalho do cientista não é considerado um trabalho, é estudo).

Em meio a tentar decidir qual o próximo caminho a seguir, você se pega refletindo “será que eu quero isso mesmo?”, e se vê querendo experimentar coisas novas.

Será que a minha real vocação é cantar? Cozinhar? Será que largo tudo e começo uma nova faculdade? Ou será que sigo o plano e continuo na pesquisa e ensino? E foi assim, enquanto decidiam se seguiriam na carreira acadêmica ou não, que as duas, sem ainda se conhecerem, mas compartilhando a mesma angústia, decidiram se aventurar na comunicação.

Cada uma a seu modo, Laura e Ana ingressaram na divulgação científica ainda durante a pós-graduação – Laura trabalhava no mundo analógico (i.e., presencial) prestando atenção farmacêutica; Ana já havia entrado no mundo digital e se aventurava gravando vídeos para mostrar para as pessoas como é o trabalho em um laboratório. Até que surgiu uma competição.

Era só uma competição de comunicação científica – uns dias no Rio de Janeiro, umas apresentações, uns treinamentos e concorrer a uma viagem para a Inglaterra. Ninguém imaginaria que esse evento uniria duas mentes com a mesma vontade a ponto de mudar a vida das duas para sempre.

Os treinamentos, dados por uma britânica comunicadora de ciência, foram transformadores. Além de receber conhecimento técnico e prático sobre comunicação, Ana e Laura aprenderam que existia uma possibilidade de carreira ali, desde que estivessem dispostas a “abrir o mato”. Emily, a comunicadora, repetia uma frase ao longo do treinamento: “Say yes, panic later” (“diga sim, entre em pânico depois”).

Sem combinar, Laura e Ana fizeram uma tatuagem com essa frase, como um lembrete constante de “aceite os desafios que aparecerem agora e deixe para se desesperar depois”. E se a gente usasse tudo o que aprendeu e se juntasse para falar de ciência nas redes sociais? As pessoas estão lá scrollando e de repente, pá: conhecimento em linguagem acessível.

Laura Marise e Ana Bonassa uniram a paixão pela divulgação científica para criar o Nunca Vi 1 Cientista, transformar incertezas do doutorado em carreira e combater as fake news. Foto: cris santoro

Era o momento de dizer sim. Sim, vamos criar conteúdo de ciência na internet; sim; vamos descobrir como é que faz design de post e como faz edição de vídeo; sim, vamos aprender como gerenciar uma empresa.

Encontraram uma na outra a coragem que faltava para ampliarem aquele trabalho de comunicação que já faziam há anos – e, assim, nasceu o Nunca vi 1 Cientista (o nome faz alusão ao fato de a maioria das pessoas nem imaginar quem são os cientistas, e a grafia com o numeral 1 é para que seja lido tanto “um” como “uma” – a gosto do freguês).

Mas não tinham ideia de que esse trabalho não seria apenas explicar o básico da ciência e trazer curiosidades: em poucos meses, perceberam que desmentir coisas seria grande parte do trabalho. Descobririam que, na suposta era da informação, o que reina nas redes sociais é desinformação.

Está muito fácil enganar pessoas: muita gente acredita em basicamente qualquer coisa que for dita por uma pessoa falando com firmeza e se apropriando de um argumento de autoridade. Descobriram que a informação precisa estar onde a desinformação domina. Descobriram que a internet precisa de gente disposta a dedicar a vida a combater conteúdos falsos, que enganam as pessoas, e a ensinar o que é ciência e sua importância.

E hoje, 8 anos depois, é seguro dizer que aquele fim de doutorado cheio de incertezas foi um grande começo. Ainda mais quando conteúdos falsos, com potencial de prejudicar a saúde das pessoas, se multiplicam mais rápido que bactérias bem alimentadas; quando sempre há uma nova descoberta para explicar, uma dúvida para responder, uma ideia para traduzir.

Por isso que dizemos: nosso trabalho não vai acabar nunca. E agora, parte dele será aqui, dando início a uma nova etapa dessa história, como colunistas do TecMundo no Estadão.

Ana Bonassa e Laura Marise, do Nunca vi 1 Cientista.


Fonte da notícia: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://www.estadao.com.br/tecmundo/stem/nosso-trabalho-nao-vai-acabar-nunca/

Nunca vi 1 cientista

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