Com STF, TSE e Meta, atravessamos dupla desconfiança na eleição de 2026

Com STF, TSE e Meta, atravessamos dupla desconfiança na eleição de 2026
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No último dia 14 de outubro, o Brasil descobriu que a eleição presidencial também estava sendo disputada no gerador de figurinhas do WhatsApp. Usuários pediam à Meta AI uma arte verde e amarela com “Lula 13” e recebiam uma recusa. Trocavam para “Flávio 22” e a imagem saía. O caso foi levado ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
O episódio parece pequeno, já que uma eleição não se decide pela geração ou não de figurinhas, mas ainda assim ele condensa aquilo que talvez seja o legado mais duradouro desta eleição. Atravessamos uma dupla crise de confiança. De um lado, desconfia-se das plataformas que se tornaram a infraestrutura do debate eleitoral sem oferecer a transparência que esse papel exige.
De outro, desconfia-se das autoridades encarregadas de fiscalizá-las, cujos ministros passaram os últimos meses desafiando uns aos outros com decisões monocráticas. Uma desconfiança alimenta a outra, e as duas alimentam narrativas de favorecimento que nenhum dos lados consegue confirmar ou desmentir de modo definitivo.
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No dia 16, a Meta publicou uma nota reconhecendo incidentes técnicos que atingiram a campanha de Lula.
A conta de anúncios do presidente foi desativada por um erro de classificação do sistema antifraude. Um bug congelou a contagem de visualizações em mais de cem países por cerca de cinco horas no dia 7 de outubro. E os filtros da Meta AI deixavam passar combinações de primeiro nome e número de urna no Whatsapp. A empresa nega qualquer viés e classifica as acusações como uma narrativa política construída a partir de falhas sem relação entre si.
O problema é que esses erros são admitidos em um cenário no qual se sabe muito pouco sobre o funcionamento das redes que se tornaram centrais para o debate eleitoral – e em uma eleição que transcorre em um período muito curto para que questões técnicas mais complexas sejam adequadamente endereçadas.
A campanha petista passou a listar disparidades de engajamento, restrições de impulsionamento e até a sugestão do canal “Tropa do Flávio” a quem buscava o “Exército do Lula”. Cada uma dessas queixas pode ter explicação técnica rotineira. Na ausência de transparência sobre impulsionamento, recomendação e moderação, todas viram peças do mesmo quebra-cabeça.
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Vale notar aqui o deslocamento do debate. Por anos, a direita acusou as plataformas de remover demais, provocando censura, e a esquerda cobrou que as redes moderassem mais, parando de deixar online conteúdos danosos. Em 2026, é a campanha de Lula que levou a Meta à ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados), à OEA (Organização dos Estados Americanos) e a observadores internacionais, e é o PT que lançou uma plataforma sobre “censura digital” para reunir relatos de bloqueios e limitação de alcance.
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A palavra censura trocou de lado no palanque. Mais do que isso, a disputa saiu da lógica sobre remoção de conteúdo e parece ter migrado para a sua distribuição.
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Esta é a quinta eleição brasileira desde que o escândalo da Cambridge Analytica estourou, em março de 2018. A lição que as plataformas tiraram dele é uma das causas de estarmos nessa situação.
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Como todo o escândalo começou com um pesquisador abusando do seu acesso a dados do Facebook e os entregando para uma empresa de marketing político, as empresas de tecnologia progressivamente foram descontinuando ou restringindo de forma importante as suas parcerias com pesquisadores da academia e com a sociedade civil.
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As plataformas de compartilhamento foram restringidas, o Twitter passou a cobrar caro pelo acesso e a Meta encerrou o CrowdTangle (a sua ferramenta de análise de dados para pesquisa) em 2024, substituindo-o por uma biblioteca de conteúdo de acesso mais limitado.
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O resultado é que sabemos cada vez menos sobre as empresas que sabem cada vez mais sobre a comunicação em processos eleitorais.
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Se a crise fosse só das plataformas, caberia às instituições oferecer o contrapeso de previsibilidade. Mas aconteceu o oposto, já que o STF (Supremo Tribunal Federal) e o TSE passaram a campanha em uma sucessão de decisões que anulavam umas às outras, e cada reviravolta virou combustível para quem já desconfiava.
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O caso de Nossa Senhora Aparecida abriu a temporada. Em 25 de setembro, o ministro André Mendonça, no TSE, mandou remover publicações que associavam Flávio Bolsonaro a uma proposta de retirar da santa o título de padroeira. Dois dias depois, Flávio Dino, no STF, restabeleceu a postagem de um humorista. No dia seguinte, Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino. Foram três ministros em quatro dias, e o plenário do TSE acabou elaborando uma tese para pacificar a controvérsia.
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Os debates na TV seguiram o mesmo roteiro. Horas antes do encontro da Globo no primeiro turno, uma liminar proibiu a emissora de exibir o púlpito vazio de Lula. Em paralelo, Gilmar Mendes, no STF, derrubou decisão de Nunes Marques e mandou incluir Renan Santos no debate.
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Nada, porém, supera a saga do canal “Exército do Lula” no WhatsApp. No domingo, 11 de outubro, Nunes Marques, presidente do TSE, suspendeu o canal a pedido da campanha de Flávio. Horas depois, o corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva o restabeleceu. Na segunda, a própria assessoria de combate à desinformação do tribunal informou não ter encontrado a reiteração de conteúdos já declarados ilícitos.
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Na terça, Nunes Marques derrubou a decisão do corregedor e condicionou a volta ao registro do canal e a uma carência de 48 horas. Bloqueado, desbloqueado, rebloqueado e liberado, o caso terminou com o plenário aprovando, em 16 de outubro, uma resolução sobre canais vinculados a campanhas. Faltavam nove dias para o segundo turno.
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A ironia é que o TSE tem algumas das regras mais detalhadas do mundo sobre IA em eleições. Exige rotulagem de conteúdo sintético, veda conteúdo artificial com imagem ou voz de candidatos nas 72 horas anteriores ao pleito e proíbe que sistemas de IA recomendem candidatos, mesmo a pedido do usuário. E ainda assim foi pego no contrapé por um debate sobre figurinha de WhatsApp.
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No domingo o país vai escolher um presidente. A dupla crise de confiança, no entanto, não termina com a apuração. Quem perder terá à mão um repertório pronto de suspeitas, com dúvidas sobre como funcionam as redes sociais e um histórico de decisões judiciais contraditórias. Quem ganhar governará sob uma dúvida difusa, que pega tanto as empresas de tecnologia como as autoridades que deveriam zelar pela segurança do processo eleitoral.
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Sair desse lugar exige movimentos dos dois lados da balança. Por parte das plataformas, há muito o que fazer para aumentar a transparência sobre impulsionamento, recomendação e moderação, com acesso efetivo a dados para pesquisadores. Por parte das autoridades, é preciso resgatar alguma mínima colegialidade e auto contenção, com regras fixadas antes do jogo e controvérsias resolvidas pelo plenário em tempo útil.
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Uma figurinha de WhatsApp se gera em segundos. A confiança que ela ajudou a corroer vai levar bem mais do que uma eleição para ser reconstruída.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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Fonte original: www.uol.com.br
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