IA sem Aperreio

IA substitui policial e recebe mais de 150 BOs ao dia pelo WhatsApp no PI

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IA substitui policial e recebe mais de 150 BOs ao dia pelo WhatsApp no PI

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Ir à delegacia ou acessar um site para relatar um crime deixou de ser a única alternativa para registrar boletins de ocorrência ou fazer denúncias para a polícia. No Piauí, os cidadãos podem acionar os agentes pelo WhatsApp e, do outro lado, uma inteligência artificial criada para funcionar 24 horas por dia compreende até áudios e dispara um alerta interno se for um caso emergencial, que envolva violência contra crianças ou mulheres.

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Em pouco mais de um ano de funcionamento, a IA já viabiliza, em média, 414 atendimentos a situações emergenciais e registra 156 B.O.s por dia.

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Batizada de BO Fácil, a iniciativa é alimentada por uma IA que não saiu dos laboratórios de OpenAI (ChatGPT), de Google (Gemini) ou Anthropic (Claude). O modelo de linguagem Soberano 1 foi desenvolvido pelo governo do Piauí com parceiros privados e acadêmicos, treinado em português e roda em um data center estadual.

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Não atua só na polícia, mas já é empregado em mais de 800 serviços públicos e está sendo negociado com o governo federal e para chegar a outros países de língua portuguesa.

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Devido à onda recente de digitalização da administração pública, o Piauí foi apontado como a unidade da Federação com a melhor oferta de serviços públicos digitais pelo Ranking de Competitividade dos Estados 2026, elaborado pelo CLP (Centro de Liderança Pública) e a Tendências Consultoria.

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Do WhatsApp ao B.O. assinado

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Por fora, o BO Fácil parece qualquer contato corporativo do WhatsApp, seja da operadora de celular ou de um consultório de dentista. A diferença está no que acontece depois do “olá”. Em vez de lidar com menu engessado —tipo “digite 1 para segunda via”— o cidadão mantém uma conversa como uma pessoa digitando. De cara, a IA oferece três portas:

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Registro de ocorrência: o B.O. propriamente dito;

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Denúncia anônima: a identidade da pessoa é preservada, mas o relato é registrado;

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Atendimento emergencial: é o equivalente a discar 190 e aciona diretamente o CICC (Centro Integrado de Comando e Controle), onde um humano assume a conversa na hora, antes mesmo de qualquer interação com a IA.

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Desde seu lançamento, em junho de 2025, até meados de outubro, o BO Fácil realizou 195.382 atendimentos emergenciais, recebeu 75.438 solicitações de registro de ocorrência e colheu 9.512 denúncias anônimas.

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Quem escolhe registrar a ocorrência entra em uma entrevista guiada: o que aconteceu, quando e onde —com a opção de enviar a localização pelo próprio aplicativo. Depois, a IA pergunta se há outros envolvidos ou objetos a descrever. Celular roubado? Ela pede marca, modelo e o que mais a vítima souber.

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É para ser uma ferramenta extremamente democrática. A pessoa que tem dificuldade em escrever, ou que está numa situação ruim para escrever, pode mandar áudio, que a inteligência artificial vai identificar. Flávio Nogueira, gestor de sistemas da Polícia Civil do Piauí

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No fim da conversa, a IA redige um relato histórico do caso e devolve ao cidadão um PDF com o comprovante de solicitação. Ainda não é o B.O., só emitido após um policial entrar em cena. Todas as conversas feitas pelo BO Fácil vão para o GovChat, a plataforma que serve de repositório do serviço.

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Do lado da Polícia Civil, uma equipe de validadores acessa no painel o relato já estruturado pela IA a partir da troca com o cidadão, que conta inclusive com a tipificação do crime —ameaça, furto, roubo etc.

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Ao transpor as informações para o sistema oficial de registro policial, o agente já vê o sistema indicando a unidade responsável pela apuração. No mesmo instante, o cidadão recebe no WhatsApp o B.O. oficial em PDF, com assinatura eletrônica e o nome da delegacia que vai cuidar do caso.

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A IA que lê nas entrelinhas

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Se fosse apenas um formulário automatizado, o BO Fácil não precisaria de inteligência artificial. A máquina foi treinada para categorizar o que ouve e tomar decisões com base no relato do cidadão.

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Isso inclui redirecionar o relato para uma área diferente da selecionada pela pessoa. Exemplo: mesmo que um sujeito tenha escolhido fazer apenas um registro comum, a IA pode identificar no que ele está falando sinais de que é caso de socorro imediato e direcioná-lo para o atendimento emergencial. Por isso, algumas categorias ganham alerta máximo: desaparecimento de pessoas, violência doméstica e violência escolar, ameaça a escolas.

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É importante ressaltar isso, porque a gente atribui uma criticidade maior a esse tipo de ocorrência, para analisar com mais celeridade. Flávio Nogueira, gestor de sistemas da Polícia Civil do Piauí

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No caso da denúncia anônima, a lógica é outra. O denunciante faz o relato por áudio ou texto, e a IA transcreve. Para a polícia, chegam apenas data, hora e o teor da denúncia, sem nenhum dado que permita identificar quem a fez. O material segue para análise das agências de inteligência da Secretaria de Segurança e da Polícia Civil.

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Um peso leve criado em casa

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O motor do BO Fácil é o Soberano 1, primeiro modelo de linguagem funcional do projeto SoberanIA, o conjunto de ações do Piauí para digitalizar a administração pública.

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O projeto nasceu em 2023, quando o Conselho de Transformação Digital do estado, presidido pelo governador Rafael Fonteles (PT), estruturou o plano de ação para transportar a região para a era da IA, mas decidiu que não iria apenas contratar serviços de OpenAI, Anthropic ou via AWS. Para tocar a agenda, criou a Etipi (Empresa de Tecnologia da Informação do Piauí), que substituiu a ATI (Agência de Tecnologia da Informação do Piauí).

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Em 2023 e 2024, cerca de 70 pesquisadores com mestrado e doutorado, parte deles com passagem por big techs, buscaram responder se um estado brasileiro conseguiria construir um modelo de IA generativa próprio. Concluíram que sim.

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Capitaneada pela empresa brasileira Amadeus e com a participação do PIT (Piauí Instituto Tecnologia), a iniciativa passou por todas as etapas da criação de uma IA. Construiu o conjunto de dados usado para treinar o modelo —com cerca de 100 bilhões de tokens, todos em português—, ensinou a máquina a falar nossa língua e até desenvolveu um teste para avaliar sua brasilidade. Em meados de 2025, o Soberano 1 ficou pronto.

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O tamanho dele é de cerca de 32 bilhões de parâmetros, uma fração dos modelos de fronteira, que chegam à casa dos trilhões de parâmetros. Modesto de propósito, na avaliação da Etipi e da Amadeus.

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Em vez de saber um pouco de tudo, o Soberano 1 está sendo especializado em serviço público brasileiro: licitação, SUS, segurança pública.

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Para brigar com o GPT no patamar do GPT, a gente vai ter que mudar de categoria. No boxe, tem o peso pena, o peso leve, até chegar lá no peso pesado. O SoberanIA não está brigando lá em cima. Ellen Gera, presidente da Etipi

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O ecossistema do SoberanIA roda no data center estatal, adaptado para executar fluxo de IA e onde já estavam serviços como a folha de pagamento dos servidores públicos e os dados do Detran, da saúde e educação do estado.

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A infraestrutura, diz Ellen Geram já está no limite de sua capacidade, já que a potência contratada e com previsão para durar mais três ou quatro anos foi consumida em 2026. Para 2027, a promessa é dobrar a capacidade do data center.

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O orçamento vem do programa Piauí Mais Digital, que soma US$ 60 milhões em infraestrutura, segurança da informação, IA e economia digital. Gera calcula que apenas o SoberanIA consome entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões do total.

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Por que o Piauí resolveu fazer a própria IA

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Segundo o presidente da Etipi, a escolha por gastar milhões de reais em uma IA passa por três pilares.

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O primeiro é o financeiro. A conta de consultas corporativas feitas ao ChatGPT é calculada com base em tokens, como se fosse um taxímetro corre a cada palavrada processada pela IA. Rodando em casa, o taxímetro não desliga, mas pertence ao estado.

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Segundo Gera, o uso de IA em um único sistema interno já gerou economias de cerca de R$ 40 mil por mês que iriam para provedores externos. Ainda assim, ele reconhece que o retorno sobre o investimento é lento.

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O segundo norte é a capacidade de replicação. Com o modelo de IA pronto, o mesmo procedimento que deu origem ao BO Fácil virou o Regula Fácil, plataforma digital lançada em julho de 2026 que leva ao WhatsApp a marcação de exames e consultas especializadas na rede estadual de saúde. O tempo de desenvolvimento foi de cinco dias e não precisou contratar ninguém de fora, diz Gera.

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O Soberano 1 ainda é o cérebro de outros sistema, como o assistente de professores para montar aulas e IA, a plataforma para elaboração de documentos de licitação e a análise e cruzamento de currículos do programa Piauí Oportunidades. Fora isso, está por trás dos agentes conversacionais de mais de 800 serviços estaduais. Mas, nesses casos, ele indica o caminho, mas ainda não resolve o pedido sozinho.

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O terceiro ponto-chave é a busca por manter informações sensíveis dentro do Brasil e assim garantir a soberania digital —daí o nome ao projeto.

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A preocupação se restringe a relatos de violência doméstica, desaparecimentos e ameaças em escolas circulando pelos sistemas de empresas estrangeiras, mas também recai sobre decisões da própria administração pública. O servidor que cola no ChatGPT o rascunho de um edital está, na prática, ensinando a máquina como o governo licita, diz Gera.

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Estou falando de eu não ter alguém puxando uma tomada que vai desligar o estado. Isso é imensurável. Imagina o que é a base de dados do SUS na mão da indústria farmacêutica internacional. Ellen Gera, presidente da Etipi

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Além de usar o Soberano 1 como motor da transformação digital no estado, o governo piauiense pretende comercializar o modelo. As frentes de negociação abertas incluem o Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados), que gerencia a nuvem soberana e pode intermediar a adoção da IA do Piauí pela União e outros estados; a AWS, que mantém um dos maiores marketplaces do mundo; com a Claro, que atende o mercado corporativo; e o Exército, que avalia o modelo para aplicações de defesa.

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Por meio da Investe Piauí, a agência de atração de investimentos estadual, o governo negocia com a CLPL (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) para levar a IA a países como Angola, Moçambique ou Timor-Leste.

Defenda a verdade

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Fonte original: www.uol.com.br

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