Conteúdo ultraprocessado e o debate eleitoral

Conteúdo ultraprocessado e o debate eleitoral
–>
–>

–>
<!–>
<!–>
–>
Esta é a newsletter do Luiz Henrique Matos. Inscreva-se gratuitamente para receber no seu email toda quinta.
<!–>
–>

Se Flávio Bolsonaro vencer as eleições para presidente neste domingo, vai consagrar um método de uso de plataformas digitais ancorado na exploração de canais de redes sociais e grupos de mensagens e na criação de peças de comunicação em larga escala e de forma descentralizada.
Se Lula ganhar, também.
Na noite de 4 de outubro, depois da apuração do primeiro turno, eleitores petistas se deram conta de que só um milagre poderia reverter a diferença de votos entre os dois candidatos nas três semanas seguintes. Os dados das pesquisas e as probabilidades não davam muita esperança.
<!–>
–><!–>
–>
Na manhã de 5 de outubro, movimentos políticos no entorno do presidente cataram os cacos e resolveram colocar em ação uma estratégia de mobilização que, no método e nas táticas, é exatamente o que os grupos conservadores vêm fazendo.
Há uma “pequena” desvantagem de treze anos entre os grupos nesse páreo, mas o aumento na popularidade digital de Lula e as pesquisas dos últimos dias mostrando a redução da distância entre eles precisam ser creditados ao trabalho de lideranças emergentes no campo progressista que vêm se empenhando na campanha usando um modelo de operação em mídias digitais que, há mais de uma década, é dominado por figuras ligadas à direita. A distinção entre as abordagens de um lado e do outro até então vem sendo cuidadosamente estudada pelo professor de filosofia política Marcos Nobre sob o conceito de “partido digital” elaborado por ele.
De forma um tanto simplista, esse método passa por: (i) ativar grupos de WhatsApp em torno de interesses, regiões ou assuntos de afinidade ? mesmo que não sejam de cunho político ?, (ii) abrir e mobilizar perfis em redes sociais que estejam congregados ao redor da mesma pauta e concordem em produzir conteúdo sobre o tema e fazer publicações de forma coordenada e (iii) organizar eventos nas ruas e ocupar programas de TV e podcasts que possam render cortes que despertem uma sequência de ondas de difusão dessas mensagens.
Saber que sua prima no grupo de WhatsApp replica o mesmo link que você viu o colega de trabalho postar no grupo de futebol e que também está no perfil de Instagram da sua advogada, no YouTube do influenciador que você segue e no TikTok da atriz daquela novela que você… veja, aos poucos, a onda informacional desperta a sensação de pertencimento e te encoraja a se tornar um vetor de divulgação em seus grupos e redes pessoais. Depois que a mensagem pega esse embalo, as pequenas bolhas começam a ser furadas e ajudam a espalhar novas ideias em escala.
<!–>
No começo, a criação e a articulação são coordenadas, mas, depois que atinge esse fluxo, a elaboração das peças de comunicação e as mensagens em geral passam a ser fragmentadas e descentralizadas. Quem está engajado na causa se prontifica, cria e joga suas ideias, memes e vídeos nesses espaços, que viram barris de pólvora para explodir além dos canais onde nasceram.
–>
Importante dizer que não estou comparando o teor das mensagens, mas o método. Culpamos algoritmos, mas ignoramos que há um papel de quem aprende a manipular (chamam de “otimização”) a dinâmica das redes nesse processo. A coisa é bem mais sofisticada do que descrevi acima e tem nuances que extrapolam a vontade e a ação de quem está à frente de campanhas de comunicação. Mas saber minimamente a lógica de funcionamento talvez nos ajude a ponderar sobre o quanto estamos a serviço dessa manipulação, não só no campo político, mas em qualquer causa que nos prestemos a defender nos diferentes espaços digitais que frequentamos.
<!–>
Voltando às eleições: se um candidato consegue explorar as plataformas digitais para fazer chegar às pessoas uma comunicação que coloque sua estratégia em paridade com a de seu adversário, isso permite que os eleitores acessem as ideias, propostas e denúncias que ambos apresentam. Mesmo com as bolhas reverberando a mesma tônica e toda a disputa de narrativas (ouvi falar que morre um Tamagotchi cada vez que alguém escreve “narrativas”), táticas iguais deveriam permitir condições iguais.
<!–>
O problema, no entanto, é que esse volume todo e essa velocidade premiam apenas o tipo de mensagem que não promove uma discussão produtiva. A lógica das plataformas sociais (e a natureza do nosso comportamento, vamos admitir) incentiva que um conteúdo superficial ganhe mais audiência e repercussão: os memes, pautas simplificadas e essa cultura troll de quinta série baseada em lacração. Em uma analogia com a forma como nos alimentamos, é como se o conteúdo que consumimos fosse ultraprocessado: barato, fabricado para ser irresistível, de baixo valor nutritivo e viciante.
–>
O conteúdo ultraprocessado empobrece o debate de tal forma que mesmo os candidatos, quando têm a oportunidade de ficar frente a frente (como aconteceu no debate da TV Bandeirantes no último domingo), em vez de confrontar ideias e propostas, moldam suas falas e posturas para dialogar com essa lógica do ambiente digital. O programa televisivo virou escada para a campanha online. Dados do Google Trends mostram que, nos últimos sete dias, os termos relacionados aos tópicos trazidos à tona no evento estão entre os mais buscados pelos brasileiros.
<!–>
Já seria ruim se fosse só isso. O agravante é que essa dinâmica também favorece (e, às vezes, recompensa) a disseminação de desinformação em tal volume que o trabalho de checagem e remoção se torna quase impossível. A popularização da IA generativa só fez com que isso ficasse ainda mais veloz e adquirisse – como gosta de falar a turma que trabalha com isso – escala. Porque agora todo mundo pode produzir e replicar peças de informação e desinformação a partir de seu chatbot de preferência (sejamos justos, nem todos permitem que qualquer coisa seja criada, mas, se você quiser fazer algo “do mal”, acha uma IA a dois cliques de distância que te atenda) e se converter em agente de “slopaganda”.
–>
Usar o método para se comunicar e fomentar comunidades online sem cair na arapuca da desinformação é o desafio. Porque, no fundo, é conveniente aderir. Na verdade, é bem tentadora a ideia de tornar um pouco mais aceitável uma notícia falsa quando ela confirma nossas crenças e serve ao fim pelo qual lutamos. Usar o espaço para mover o pêndulo em outra direção e permitir que propostas sejam debatidas é uma causa que as vozes que lutam por algo legítimo não deveriam negociar.
<!–>
Que a internet tem peso desproporcional no espaço político não é novidade: isso acontece desde 2008, com a eleição de Barack Obama nos EUA – e se acentuou com todos os movimentos, protestos e campanhas eleitorais que vieram depois disso – e vínhamos observando a consolidação dos meios digitais como núcleo de tomada de decisão. Mas as eleições brasileiras deste ano colocam as plataformas sociais como determinantes para o resultado porque, em vez de praças de disseminação e troca, viraram protagonistas do processo.
–><!–>
–>
<!–>
–>
Um lado vai ganhar as eleições. Mas todos têm a perder se não fizermos uma discussão profunda sobre as regras de operação de redes em nossa sociedade e aproveitarmos essa mobilização para investir em projetos de alfabetização digital no país. Independentemente do resultado que tenhamos neste fim de semana, se isso não servir de aprendizado para nos desintoxicar dos ultraprocessados que consumimos, vamos premiar um modelo que seguirá como balizador (agora mais acirrado e tóxico) para qualquer tipo de debate – mesmo os não políticos – nos próximos anos. Haja estômago.
–>
(Se quiser continuar a conversa, me escreva. Estou no Instagram e no Substack).
<!–>
–>
para não dizer que só falei de flores, falei também de árvores, aves e do outono na minha coluna mensal sobre leituras aqui para o Livros Mudam Vidas. Comecei a leitura de “Os últimos dias de Roger Federer e outros finais” de Geoff Dyer. Li sobre gente achando que o Claude tem alma, sobre o carro voador da Tesla e como os homens (claro) mentem acerca do que sabem sobre IA.
<!–>
li sobre o tipo de gente que só escreve em caixa baixa. e ainda que isso agrida minha compulsão, passei a entender melhor por que minha filha se comunica desse jeito. ou não.
–>
E (ufa) naveguei neste site que tenta entender o que raios aconteceu em 1971. Veja aí.
<!–>
Terminei de assistir a um monte de séries que estavam sem terminar (The Pitt, Shrinking, Slow Horses e O Estúdio) porque uma virose nocauteadora sempre ajuda a alcançar esse tipo de meta e porque eu precisava de uma dose de alienação nesses dias. E assisti, por fim, a uma recapitulação do jogo entre João Fonseca e Novak Djokovic para me inspirar, quem sabe, em viradas épicas. Até!
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
–>
–>
Fonte original: tilt.uol.com.br
Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur.
Deixe seu comentário
<!–>
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.
–>
<!–>