Guia de Compras e Reviews

A Odisseia de Christopher Nolan traz o sentimento de uma jornada para o cinema de maneira grandiosa

Escrever a crítica de um filme pode ser um desafio. Às vezes o longa-metragem é tão ruim que fica até difícil tirar insumos suficientes para escrever um texto completo. Em outras vezes, a produção é boa, mas possui momentos terríveis que te fazem pensar em ignorá-los ou não para formar a sua opinião final.

Também existem filmes que são esquecíveis, que acabam chegando e indo embora com uma breve brisa no top 10 na Netflix. Por outro lado, algumas obras se tornam ótimas porque ressoam em um nível pessoal, além de muitas outras possibilidades. O desafio pra escrever essa crítica aqui é que A Odisseia é um filme ótimo, completo e cheio de momentos em suas 2 horas e 52 minutos que merecem uma menção.

smart_display

Nossos vídeos em destaque

O projeto foi anunciado em 2024 e, já muito ambicioso por si só, Christopher Nolan ainda assumiu o roteiro e a direção. A responsabilidade de adaptar uma obra tão clássica e conhecida é enorme e o cineasta deu conta do recado. Sem surpresas por aqui, já que Nolan havia acabado de passar por uma onda de vitórias no Oscar de 2024, pelo seu longa Oppenheimer.

A questão é: será que a adaptação vai ser suficiente para os amantes da história original? Faltou algo no roteiro de Nolan ou ele soube como transformar esse poema em uma obra audiovisual memorável? Confira a crítica completa do Minha Série abaixo.

Duração pode assustar, mas vale a jornada

Uma preocupação legítima e que inclusive foi pontuada em algumas primeiras impressões é o ritmo do filme. Uma obra de quase 3 horas que retrata a jornada de Odisseu de volta para Ítaca 6 anos após o final da Guerra de Troia e 20 anos após a sua partida (caso não esteja familiarizado, confira tudo o que você precisa saber antes de assistir ao filme) corria riscos de pecar no ritmo, mas isso não acontece. 

Diálogos entre Telêmaco (Tom Holland) e Penélope (Anne Hathaway) trazem um começo desacelerado para o filme.

A história pode até começar uma pouco mais lenta, com foco nos diálogos entre Telêmaco e Penélope, mas uma vez que engata, ele não para mais. Se prepare para uma jornada que começa discreta e, quando você percebe, já está completamente imerso nesse universo da Grécia antiga. 

Um diferencial dessa história está na mitologia grega, que oferece uma ação diferente da que estamos acostumados nas telas de cinema. Sem armas de fogo, poderes modernos ou efeitos visuais extremamente fantasiosos, mas com cenas que não deixam de ser aterrorizantes, principalmente com o som que a sala IMAX proporciona.

Um elenco não pode ser tão bom assim… Ou pode?

odisseia-anne-hathaway.png
Penélope de Anne Hathaway rouba a cena.

Quando menciono que o começo do filme é mais lento com os diálogos entre Telêmaco e Penélope, de forma alguma considero isso um problema, muito pelo contrário. Anne Hathaway entrega uma performance emocionante como Penélope, que ouso dizer ser uma das personagens femininas mais interessantes que Nolan já escreveu. Ela foi a minha escolha favorita do elenco neste filme, mas os outros não ficam tão atrás. Matt Damon dá vida a um Odisseu sensível sem deixar de ser imponente, deixando o protagonista interessante do começo ao fim.

odisseia-estatua.png
A Deusa da Sabedoria é interpretada por Zendaya.

Já consigo ler as críticas negativas sobre a Atena de Zendaya antes mesmo delas serem lançadas, mas não conte com isso neste texto: uma das melhores atrizes da geração foi, sim, uma escolha certeira de Nolan para interpretar a Deusa da Sabedoria. Na obra original, a deusa aparece na forma de diferentes pessoas para guiar Odisseu, essa estratégia não foi utilizada da mesma forma aqui, mas sim por meio de outro artifício: a descrição. 

Como em A Origem, Interestelar, Oppenheimer, o diretor conta a história de maneira grandiosa (aqui, mais do que nunca), mas não esquece que quem faz tudo acontecer são os humanos, que não existem sem suas emoções.

Atena não aparece para fazer cena, dar respostas ou roubar a atenção do protagonista, mas realmente como uma guia, uma provocação discreta que faz o personagem chegar às suas próprias conclusões. A atuação de Zendaya impressiona cada vez mais ao longo do filme, mas talvez não da maneira óbvia que muitos esperam. Ah, importante lembrar: o próprio Tom Holland relatou que sua esposa foi a única a receber um “perfeito” de Nolan. Isso tem que impor algum respeito, não?

odisseia-robert-pattinson.png
Robert Pattinson é o Antínoo perfeito e acaba engolindo Tom Holland em suas cenas.

Por mais que não sejam personagens tão conhecidos, Antínoo de Robert Pattinson e o Eumeu de John Leguizamo precisam ser mencionados. Os dois atores não deixam seus personagens serem esquecidos e entregam performances essenciais para a narrativa. No momento em que ela entra em cena, a Calipso de Charlize Theron faz com que você não imagine outra atriz nesse papel, sendo o contraste perfeito para a Penélope de Hathaway.

lupita-nyongo-a-odisseia.webp
Lupita Nyong’o é Helena de Troia em A Odisseia.

Mas e a polêmica Helena de Troia? Não existe nenhum impeditivo para uma atriz negra interpretar a icônica figura, já que o conceito de cor e raça era muito menos definido no século XII a.C., sendo uma época sem tantas fronteiras quanto atualmente. A primeira cena de Lupita Nyong’o no filme foi tão impactante que é compreensível aquela ser a mulher mais bela do mundo, que provocou a Guerra de Troia. A presença da atriz como Helena e como sua irmã-gêmea, Clitemnestra, é marcante.

odisseia-tom-holland.png
Tom Holland deixa a desejar como o importante Telêmaco.

O elenco realmente se destaca no filme. Elliot Page, Jon Bernthal, Himesh Patel, Mia Goth e Samantha Morton, além de outros coadjuvantes, não passam despercebidos. Agora… Tom Holland como Telêmaco, para mim, foi o elo mais fraco. O ator combina com a figura do personagem mas acaba sendo ofuscado pela presença dos outros atores, principalmente em seus confrontos com Penélope e Antínoo, quando ele acaba sendo engolido por Hathaway e Pattinson. Até agora fico pensando se essa não era a intenção, mas ainda sinto falta de uma performance de destaque do ator no filme.

Adaptação dos mitos

odisseia-mitos.png
Nolan não deixa nenhum dos mitos principais de fora de sua adaptação.

Muito do que se conhece de A Odisseia são seus mitos. Grande parte da jornada de Odisseu é contada por meio de flashbacks quando ele está na Ilha de Calipso e Christopher Nolan adaptou todas as histórias com maestria e respeito à obra original. Apesar de escrever ficção, o diretor é conhecido por fazer filmes realistas e humanos e, de forma certeira, isso não foi diferente nem nos mitos de A Odisseia. 

odiesseia-mito.png
A sequência dos lestrigões é pouco explicada.

Por se tratar de uma história extensa, alguns detalhes foram alterados para a adaptação, mas nada que tenha atrapalhado na narrativa. Os maiores fãs de mitologia grega podem sentir falta de explicações na história dos lestrigões (cujo nome não é nem mencionado no filme), na visita à Circe e até um destaque maior para as sereias, considerando que talvez sejam as criaturas mais conhecidas pelo público geral.

Não fugindo do que esperado do diretor, que constantemente brinca com o conceito de tempo e não é fã de contar histórias em seus filmes por uma cronologia linear, A Odisseia foi um prato cheio para o cineasta.

Ainda assim, para um filme de quase 3 horas, fiquei satisfeita que o diretor não cortou nenhuma das histórias por completo, apenas omitiu alguns personagens que seriam bem-vindos, como o deus dos ladrões e dos viajantes, e mudou como certos conflitos sem desenrolam.

odisseia-charlize.png
Odisseu passam muito tempo refém de Calipso durante A Odisseia.

A sequência dos flashbacks, assim como na obra original, segue sendo uma das partes mais interessantes da história. Eu estava tão vidrada que não vi o tempo passar, sem conseguir tirar o olho da tela e realmente me sentindo parte da jornada de Odisseu. Com cenas aterrorizantes e realistas, Nolan conseguiu trazer criaturas mitológicas com maestria para uma tela de cinema do século XXI.

odisseia-troia.png
Não tem como contar a história de A Odisseia sem contextualizar coma Guerra de Troia.

Outra adaptação que, apesar de não ser o foco da história, foi perfeitamente encaixada para dar contexto à jornada do herói, foi a Guerra de Troia. Imagino que tenha sido tentador para o diretor incluir o gigante cavalo de troia à sua narrativa, mas fico feliz que ele não tenha resistido a esse instinto. Tudo que foi incluído no filme em relação à histórica guerra fez sentido e trouxe mais grandiosidade ainda.

Percepção do tempo

odisseia-cenario.png
O diretor não deixa espaço para dúvidas em relação à narrativa.

Não fugindo do que esperado do diretor, que constantemente brinca com o conceito de tempo e não é fã de contar histórias em seus filmes por uma cronologia linear, A Odisseia foi um prato cheio para o cineasta. 

O vai e volta do filme é tão bem conduzido que chegou um momento em que eu realmente só me deixei levar, percebendo só no final onde todas as histórias levaram. Sem nenhum sentimento de confusão ou de cansaço, apenas pela pura imersão que a história provocou.

Por mais racional que Nolan seja, não existe humanidade sem sentimentos

odisseia-emocao.png
Apesar de ser um filme grandioso em diversos sentidos, tanto pela adaptação de uma obra clássica renomada, quanto pelas locações históricas, além da cenografia perfeitamente reproduzida, A Odisseia de Christopher Nolan não seria nada sem a emoção. 

O Odisseu de Matt Damon não é um herói frio, mas sensível, emotivo e calculista quando necessário. Penélope não é uma esposa passiva, mas uma mulher em sofrimento que, ainda assim, permanece muito estratégica. A Atena atua como deusa da sabedoria ao guiar o protagonista, mas se mostra ligada a tudo que está acontecendo entre os humanos.

Os personagens adaptados por Nolan não hesitam em demonstrar emoções que são essenciais para contar a história de um poema épico. Como em A Origem, Interestelar, Oppenheimer, o diretor conta a história de maneira grandiosa (aqui, mais do que nunca), mas não esquece que quem faz tudo acontecer são os humanos, que não existem sem suas emoções.

Vale a pena assistir A Odisseia?

A aposta ambiciosa de Christopher Nolan foi mais um tiro certeiro do diretor. Se você gosta de mitologia, a história vai te empolgar ainda mais (caso você esteja disposto a abrir mão de alguns detalhes omitidos ou alterados). Assistir à reprodução de mitos que leio desde pequena em uma tela de cinema e de forma realista foi o cenário perfeito para mim. 

Pode ser que, por se tratar de uma poesia épica, alguns esperem mais fantasia do que o diretor entrega, mas não estaria de acordo com o modus operandi de Nolan. Afinal, mesmo quando adaptou o Cavaleiro das Trevas, o diretor não sucumbiu a um universo extremamente ficcional.

Se você está disposto a embarcar em uma jornada com Odisseu enquanto ele volta para sua casa, ao mesmo tempo que acompanha os desafios políticos, emocionais e bélicos vividos por Telêmaco e Penélope em Ítaca, vai fundo. 

Ao meu ver, é difícil o elenco e as questões técnicas incomodarem, mas talvez seja necessário ter uma percepção resiliente quando falamos sobre a adaptação exata das histórias como as conhecemos. Por sua história, elenco e imersão, A Odisseia se consolida facilmente como um dos filmes do ano (se não, O filme do ano) e um dos melhores do diretor.
 


Fonte da notícia: Novidades do TecMundo https://www.tecmundo.com.br/minha-serie/604220-a-odisseia-de-christopher-nolan-traz-o-sentimento-de-uma-jornada-para-o-cinema-de-maneira-grandiosa.htm

Diana Pordeus

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Verified by MonsterInsights