MPF pede R$ 200 milhões do TikTok por falhas no combate ao racismo



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Uma investigação do MPF (Ministério Público Federal) encontrou comentários racistas que continuaram disponíveis no TikTok mesmo depois de serem denunciados por um usuário e comunicados à empresa. O caso levou o órgão a entrar com uma ação civil pública contra a ByteDance Brasil Tecnologia Ltda., representante da plataforma no país. O Ministério Público pede R$ 200 milhões por danos morais coletivos e mudanças nos sistemas de moderação.
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O órgão quer que a Justiça determine medidas para impedir a circulação de mensagens racistas, melhorar os canais de denúncia e corrigir falhas na identificação de conteúdos discriminatórios. As mudanças deverão valer para toda a operação brasileira do TikTok.
O caso começou com a publicação de um vídeo que mostrava um jovem negro supostamente envolvido na subtração de um celular. Nos comentários, usuários passaram a relacionar a aparência e a cor da pele do rapaz à prática de crimes.
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Um internauta denunciou as mensagens pelo próprio aplicativo, mas recebeu a resposta de que nenhuma regra da plataforma havia sido desrespeitada. Os comentários continuaram disponíveis, e o usuário decidiu procurar o MPF.
O órgão abriu uma investigação e notificou a ByteDance. Inicialmente, a empresa afirmou que a parte técnica do TikTok era responsabilidade de outra companhia do grupo, sediada em Singapura. Também pediu que o Ministério Público informasse os endereços eletrônicos de cada comentário questionado.
O MPF fez uma perícia para identificar as mensagens e atender ao pedido. Foram encontrados 5.996 comentários na publicação. Desse total, 622 tinham palavras e expressões relacionadas ao tipo de discriminação racial investigado.
Depois de receber as informações, a empresa afirmou que tinha ferramentas eficientes de moderação automática e humana e que os comentários apontados já não estavam mais visíveis.
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Uma nova perícia, realizada em maio de 2026, mostrou, porém, que o vídeo continuava no ar e tinha 1.308 comentários. Entre eles, 22 apresentavam expressões e referências raciais semelhantes às encontradas na primeira análise.
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Para o MPF, o resultado mostra que o TikTok não conseguiu impedir a circulação de mensagens racistas mesmo depois de ser informado sobre as expressões usadas pelos usuários. Na avaliação do órgão, a permanência desses comentários contraria o dever da empresa de combater a discriminação racial.
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A investigação mostrou que as manifestações racistas nem sempre aparecem em forma de xingamentos ou insultos diretos. Em alguns casos, o preconceito está escondido em palavras que parecem comuns, mas ganham outro sentido dependendo da situação em que são usadas.
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A palavra “skin”, por exemplo, é usada nos jogos eletrônicos para falar da aparência dos personagens. Na publicação investigada, porém, apareceu em comentários que associavam características físicas de pessoas negras à criminalidade. O mesmo aconteceu com expressões como “paleta de cores” e “a cara não nega”.
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Segundo o MPF, os sistemas do TikTok não conseguiram entender a relação entre o vídeo, os comentários e as respostas de outros usuários. Uma mensagem curta de concordância, por exemplo, pode reforçar uma afirmação racista feita antes, mesmo sem repetir palavras ofensivas.
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A investigação também encontrou falhas no encaminhamento desses casos para análise de profissionais especializados. Para o Ministério Público, não basta bloquear palavras específicas. É preciso entender o contexto e identificar quando uma expressão aparentemente comum está sendo usada para discriminar alguém.
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Uma publicação não precisa despertar admiração para alcançar milhares de pessoas nas redes sociais. Revolta, medo e indignação também geram visualizações, comentários e compartilhamentos. Essa estratégia é conhecida como rage bait, ou engajamento por indignação.
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Nesse cenário, até quem entra em uma publicação para condenar o racismo pode ajudar a aumentar o número de interações e a espalhar o conteúdo.
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Quanto mais comentários, visualizações e compartilhamentos, maior pode ser o alcance da publicação e sua capacidade de gerar dinheiro com anúncios. O MPF alerta que essa forma de funcionamento das redes exige mecanismos capazes de impedir que mensagens racistas sejam usadas para atrair público.
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Por isso, a ação também pede que a ByteDance informe quantas pessoas foram alcançadas pela publicação, quantas interações ela recebeu e se houve ganho financeiro com o conteúdo. Os dados deverão ajudar a entender o tamanho da circulação do vídeo e seus possíveis efeitos econômicos.
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A ação também se baseia em decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a responsabilidade das plataformas por conteúdos publicados por usuários.
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Nos julgamentos dos Temas 987 e 533, o tribunal estabeleceu regras sobre o dever de cuidado das empresas. Entre elas está a obrigação de adotar medidas eficientes para prevenir e combater conteúdos graves e ilegais, incluindo manifestações de racismo.
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A análise da responsabilidade das plataformas leva em conta problemas que afetam seus sistemas como um todo, entre eles a falta de ferramentas adequadas para evitar a circulação de conteúdos graves e a demora para retirar essas publicações.
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Ou seja, não basta oferecer um botão para denunciar. É necessário que as denúncias sejam analisadas e que as medidas adotadas funcionem.
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Em junho de 2026, ao concluir o julgamento dos embargos de declaração, o STF estabeleceu prazo de 60 dias para que as medidas relacionadas ao dever de cuidado fossem colocadas em prática. O MPF usa esse entendimento para defender mudanças nos sistemas do TikTok.
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O Ministério Público não pede apenas a retirada dos comentários racistas encontrados na publicação. Quer mudanças nos sistemas de moderação da plataforma em todo o Brasil.
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Entre as medidas solicitadas estão:
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A proposta não é proibir palavras como “skin” ou “paleta”, mas identificar quando elas são usadas para discriminar pessoas por causa da cor da pele. O MPF defende que o contexto seja levado em conta, sem impedir os usos legítimos dessas expressões ou limitar a liberdade de expressão.
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A ação também pede medidas urgentes, com prazos específicos:
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Para as mudanças permanentes, o MPF pede que a empresa apresente um plano de adequação em 30 dias úteis. A proposta é que as alterações sejam colocadas em prática em até 60 dias depois da aprovação da Justiça.
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O órgão também pede testes para verificar se as mudanças funcionam, relatórios a cada três meses durante um ano e multa diária de R$ 100 mil para ada obrigação descumprida.
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O dano moral coletivo acontece quando uma conduta atinge direitos e valores importantes para toda a sociedade, e não apenas uma pessoa.
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Segundo o MPF, mensagens que associam pessoas negras à criminalidade reforçam ideias preconceituosas e ajudam a manter o racismo. Os efeitos, portanto, não atingem apenas o jovem que aparece no vídeo ou os usuários diretamente ofendidos.
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Por isso, o órgão pede que a ByteDance pague R$ 200 milhões. O dinheiro deverá ser destinado ao fundo previsto na lei para a proteção de direitos coletivos. A quantia não será dividida entre os usuários, mas servirá para reparar o dano causado à sociedade e responsabilizar a empresa.
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Antes de entrar na Justiça, o MPF tentou chegar a um acordo com a ByteDance. A empresa rejeitou a proposta em janeiro de 2026, alegando que seus sistemas de moderação já eram suficientes. Mesmo assim, o Ministério Público informou que continua aberto a um acordo durante o processo.
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A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) também foi incluída nos pedidos feitos à Justiça, mas não é apontada como responsável pelos comentários racistas.
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O MPF quer que a agência participe do processo, inicialmente como parte demandada. Também poderá atuar ao lado do Ministério Público ou como amicus curiae, expressão usada para definir uma instituição ou pessoa chamada a ajudar a Justiça com conhecimentos técnicos.
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Entre as tarefas solicitadas estão a análise do plano de mudanças apresentado pelo TikTok e dos relatórios enviados pela empresa. A agência deverá ajudar a verificar se os novos sistemas de prevenção, moderação e transparência são suficientes para corrigir os problemas encontrados.
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Para o MPF, as plataformas precisam ser capazes de reconhecer o racismo mesmo quando ele aparece disfarçado de brincadeira, ironia ou expressão aparentemente inofensiva. O órgão defende que as empresas não podem permitir que falhas em seus sistemas ajudem a espalhar a discriminação.
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A investigação também contou com a participação de pesquisadores ligados ao Termo de Protocolo nº 0001/2025, firmado entre o MPF e o Governo da Paraíba.
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A parceria envolve a Secties (Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior), a SEMDH (Secretaria de Estado da Mulher e da Diversidade Humana) e a Fapesq (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba).
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O acordo prevê pesquisas, formação prática em direitos humanos e criação de soluções para casos acompanhados pelo Ministério Público.
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Uma das iniciativas criadas a partir dessa parceria é o LABDH (Laboratório de Pesquisas e Práticas Jurídicas em Direitos Humanos). O espaço aproxima o trabalho de pesquisadores da atuação do Ministério Público e busca ajudar no combate a violações de direitos humanos e na melhoria de políticas públicas.
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Fonte original: www.uol.com.br
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