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Parlamentar com doença degenerativa recupera voz com IA e volta a discursar

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Parlamentar com doença degenerativa recupera voz com IA e volta a discursar

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Durante 15 anos, Jane Campbell precisou de um assistente para fazer seus discursos no Parlamento do Reino Unido. A capacidade de falar da parlamentar vem sendo comprometida por uma atrofia muscular espinhal desde que ela tem um ano. Numa sessão de outubro de 2026, porém, o plenário da Câmara dos Lordes ouviu algo diferente: o tom, o ritmo e a entonação da voz da própria baronesa, reconstruídos por inteligência artificial.

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É a primeira vez que um integrante de qualquer uma das casas do Parlamento britânico fala aos colegas com uma voz gerada por IA. O feito histórico ocorre no momento em que a clonagem de voz é encarada mais como ameaça do que como promessa. A técnica que devolveu a voz a Campbell é usada por golpistas para imitar parentes em golpes por telefone, fabricar falas de políticos e produzir áudios falsos que circulam em grupos de mensagem.

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Ao autorizar o uso de uma voz sintética, o Parlamento britânico, que ainda preserva regras do século 18, sinalizou que o crucial não é se vozes com IA devem existir, mas quem a controla e quais são as garantias. A máquina, diz Campbell, reproduz o som, mas as ideias são dela.

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Usei IA para falar minhas próprias palavras, não para colocar palavras na minha boca. O discurso, os argumentos e as opiniões são inteiramente meus. É a minha voz, o meu estilo, as minhas palavras. Uma experiência totalmente empoderadora

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Baronesa Campbell de Surbiton

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A trajetória de Jane Campbell é uma sucessão de regras quebradas. Diagnosticada com atrofia muscular espinhal com um ano, ela foi desacreditada pelos médicos, que duvidaram que chegaria ao próximo aniversário.

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Uma das principais defensoras dos direitos das pessoas com deficiência no Reino Unido, ela foi nomeada em 2007 Baronesa Campbell de Surbiton, com assento vitalício na Câmara dos Lordes.

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Em 2012, o Comitê de Procedimentos do Parlamento abriu uma exceção inédita para Campbell ao suspender a aplicação de uma regra de 1707 que proibia cidadãos não pertencentes à Câmara de ler discursos em nome de membros incapacitados.

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Mas no dia 13 de outubro, aos 67 anos, ela não precisou recorrer a outra pessoa. O discurso inédito ocorreu durante o debate sobre os Orçamentos Pessoais de Saúde (PHBs, na sigla em inglês), fundos do sistema inglês que garantem a pessoas com deficiência custear tratamentos, cuidadores e equipamentos de apoio.

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Vidas autônomas

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Para falar com sua voz de IA, Campbell recebeu outra autorização inédita do Comitê, que liberou a parlamentar para levar um dispositivo de acessibilidade acoplado à sua cadeira e rodar a versão em áudio do seu discurso via IA.

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Em seu pronunciamento, Campbell defendeu a manutenção dos PHBs para garantir vidas autônomas.

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“Sei por experiência própria a diferença que ter controle sobre o apoio recebido pode fazer para viver uma vida independente.”

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Ela foi apoiada pelos colegas, como o Lord Forsyth de Drumlean, presidente da Câmara “Embora existam preocupações justificáveis sobre alguns usos da IA, quando usada desta e de muitas outras maneiras, para o bem, devemos reconhecer suas capacidades e seu potencial transformador.”

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Como voz humana é recriada por IA

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Por trás do marco histórico, está a tecnologia da Elevenlabs, uma das startups que surgiram na esteira do boom da inteligência artificial generativa.

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Foi Campbell quem procurou a startup, especializada em desenvolver voz e áudio sintético.

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Quando alguém perde a voz, ela não perde só a voz, ela perde o jeito de rir. Ela perde as pausas, o sotaque, ela perde muito da própria identidade. A voz faz parte da identidade que nós temos (?) A ideia é que a gente possa disponibilizar a mesma voz que essa pessoa teve para que ela realmente recupere essa identidade

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Eduardo Villalba, head de marketing B2B da ElevenLabs

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Para fazer a clonagem de voz, o modelo de IA exige ao menos dez minutos de áudio limpo da pessoa para mapear frequência, pausas e entonação. O ideal mesmo, no entanto, são gravações entre 30 minutos e uma hora.

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Outras empresas clonam vozes com áudios de alguns segundos, mas a replicação soa robotizada. No caso da Elevenlabs, o modelo não replica somente o som, mas reproduz a entonação emocional que a pessoa costuma dar conforme o que está narrando.

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Antes da IA, uma pessoa que quisesse recriar sua voz precisaria gravar quase 400 sentenças.

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O caso de Campbell é similar ao do músico Patrick Darling. Diagnosticado com ELA(l Amiotrófica), ele perdeu a voz falada e cantada. Com o clone desenvolvido pela startup, ele subiu ao palco do lendário estúdio Abbey Road e apresentou ao vivo a música autoral “Polish Girl with the Irish Heart”.

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Também concedeu uma entrevista na hora. “Na primeira vez que me apresentei com a voz de IA, fiquei surpreso com a conexão física que senti com ela, mesmo sem estar cantando de fato. Há uma energia estranha envolvida e você se sente como um artista novamente”, declarou.

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Há casos, no entanto, que o paciente não possui gravações suficientes de sua voz para cloná-la. Nesse caso, a Elevelabs já recorreu à voz de algum familiar próximo, como uma irmã. A partir do timbre familiar e das referências de estilo, a startup cria uma voz adaptada com as características exclusivas do indivíduo.

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Como impedir golpes com voz clonada

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Como clonagens de voz representam riscos em golpes financeiros e falsificações, o sistema restringe a produção de clones à conta do próprio autor.

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Casos individuais comprovam a eficiência da IA, mas a startup quer ampliar seu ecossistema para fora de nichos de alta renda ou do acesso direto a gigantes de tecnologia. Para perseguir esse objetivo, a Elevenlabs criou o programa “1 Million Voices” (1 Milhão de Vozes), apresentado no SXSW Austin e para o qual reservou US$ 1 bilhão.

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As pessoas contempladas receberão licenças gratuitas e vitalícias da tecnologia. Qualquer um pode se inscrever, basta ter perdido a fala por doenças ou acidentes em escala global.

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Até agora, o serviço já devolveu a voz a mais de 11 mil pessoas. Para ter acesso, o usuário precisa comprovar a perda permanente da fala em decorrência de condições de saúde, cadastrar-se na página de impacto social da desenvolvedora e passar pelos filtros de elegibilidade. No Brasil, o projeto começa a costurar parcerias com organizações não governamentais locais para mapear pacientes no SUS.

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A revolução das cordas vocais sintéticas mostra que a IA, tantas vezes encarada como ameaça, pode garantir que continue ecoando a voz de quem ainda tem muito a dizer.

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Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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Fonte original: www.uol.com.br

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