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É possível vivermos em um Brasil sem a Meta?

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É possível vivermos em um Brasil sem a Meta?

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Sabe aquele meme do Homem-Aranha, em que três deles estão num beco, formando uma roda, cada um apontando para o outro? Essa talvez seja a melhor forma de entender a relação da última eleição presidencial brasileira com a Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp.

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As pessoas reclamavam que o Instagram impulsionava mais os vídeos de candidatos da direita. Reclamavam onde? No próprio Instagram. O deputado federal André Janones, o homem por trás do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que somou mais de 10 milhões de assinantes, ao ver o espaço ameaçado de derrubada chegou a pedir, várias vezes, que os seguidores migrassem para… outro grupo de WhatsApp.

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O relacionamento Brasil x Meta é puro lock-in: o aprisionamento tecnológico que muitas empresas do setor usam para dificultar a troca da ferramenta. Você até pode querer sair, mas o custo de sair, o trabalho, a perda de contatos, histórico e de alcance é alto demais. Daí você fica.

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E agora, passada a eleição que reelegeu o presidente Lula, veio a parte curiosa. Durante a campanha, a Meta foi acusada “repetida e sistematicamente” de prejudicar o petista: restrições de impulsionamento, contas sumindo das buscas… A sensação de alcance desigual.

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Houve protesto em frente à sede da empresa em São Paulo, carta de parlamentares americanos liderados por Bernie Sanders e críticas da ONU. Lula prometeu “derrotar o império digital”, que engloba as big techs e uma cartilha de dominação política orquestrada por Donald Trump.

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Cumpriu, mas agora as batalhas saem dos holofotes e voltam para um campo onde sempre esteve: no nosso bolso. A pergunta até este final de semana era se a Meta interferiu nas eleições brasileiras. A que fica agora é se é possível viver sem o ecossistema da empresa.

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Comece pelos números. O WhatsApp está presente em mais de 90% dos celulares do Brasil. O Instagram acaba de passar de 3 bilhões de usuários ativos mensais no mundo, segundo anúncio do próprio Mark Zuckerberg, e estudos não oficiais calculam que mais de 140 milhões de brasileiros utilizam o app.

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É comum a ideia de que o Insta seja apenas uma rede de fotos e vídeos. A própria empresa tem priorizado cada vez mais as mensagens diretas, porque descobriu que a conversa é o hábito que mais prende o usuário dentro do aplicativo. Daí o foco em grupos e comunidades, algo que já foi aplicado também no Facebook e agora ganhou projeção nacional com o WhatsApp. E aqui mora o ponto que a eleição ofuscou.

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Para uma parte enorme do Brasil, o WhatsApp não é um aplicativo dentro da internet: ele é a internet. É onde se fala com a família, com o chefe, com o médico, com a escola do filho… É também onde se vende: o pequeno empreendedor que anota pedido no “zap”, a manicure que agenda cliente, a loja de bairro que manda o catálogo por mensagem, o entregador que combina a rota.

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Isso não aconteceu por acaso. Durante anos, as operadoras de celular do Brasil ofereceram o WhatsApp e outras redes da Meta sem descontar da franquia de dados, o chamado “zero rating”. O resultado todo mundo conhece: em lugar remoto, o navegador às vezes não abre, mas o “zap” funciona. Uma dependência fabricada, tijolo por tijolo.

Já em 2015, o Facebook montou um laboratório em Heliópolis, uma das maiores comunidades de São Paulo, para treinar pequenos empreendedores, gente que já usava o Facebook e o Messenger para vender, numa espécie de gambiarra genial. A empresa não entrou na vida do brasileiro: ela virou o chão sobre o qual essa vida acontece.

Desde 2024, o Google Ads, solução de publicidade do próprio Google, não permite anúncios políticos no Brasil. Isso catapultou ainda mais a Meta no centro político destas eleições: segundo dados abertos do TSE, os políticos declararam ao menos R$288,7 milhões em pagamentos diretos à empresa, mais que o dobro dos R$129 milhões de 2022. Ainda falta computar os números do segundo turno.

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Quando uma única companhia acumula esse tipo de monopólio sobre a conversa, o comércio e a política de um país, qual é a saída? Banir os aplicativos e nacionalizar a comunicação, como fez a China? Criar um “WhatsApp estatal”, que ninguém vai querer usar?

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O debate sobre a regulação das big techs nunca foi tão urgente, e nunca tão difícil, pois vivemos um momento em que os donos dessas empresas sentam na mesa com Trump e assumem, abertamente, que vão peitar os países que, na visão delas, “não têm liberdade de expressão”.

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Foi o próprio Zuckerberg quem, em janeiro de 2025, ao anunciar o fim da checagem de fatos no Facebook, acusou países latino-americanos de terem ‘tribunais secretos; que mandam derrubar publicações ‘silenciosamente”‘ No Brasil, a fala soou como um recado indireto ao STF.

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Vale lembrar que a dobradinha Meta mais interferência eleitoral não é novidade. Em 2018, explodiu o escândalo da Cambridge Analytica, quando dados de até 87 milhões de usuários do Facebook foram coletados indevidamente para mirar propaganda política.

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A empresa havia sido contratada pela campanha de Trump para sua primeira eleição presidencial EUA, e também pelo grupo que promovia o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia). Ambos venceram.

A Cambridge Analytica faliu, enquanto o Facebook fez o rebranding para a Meta e pagou uma série de multas: US$5 bilhões da FTC em 2019 e US$725 milhões num acordo de 2022. Depois, cerca de US$17 bilhões num acordo sobre segurança infantil em agosto de 2026. Recentemente recebeu uma condenação de US$25 bilhões no estado americano do Novo México.

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Parece dinheiro do fim do mundo, mas a Meta vale hoje perto de US$2 trilhões. Os US$25 bilhões equivalem a pouco mais de 1% disso. É como aplicar uma multa de R$ 125 para alguém que tem salário de R$10 mil. Deixa de ser punição e vira pedágio: um custo operacional já embutido no orçamento de quem calculou o preço de errar.

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No Brasil, deixamos que a Meta se tornasse a infraestrutura padrão de tudo, da conversa com a avó ao faturamento do salão de beleza. O risco nunca foi ela decidir apenas quem senta na cadeira presidencial, mas termos terceirizado a praça pública, o mercado e o correio de um país inteiro para uma única empresa.

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É o beco do Homem-Aranha: todo mundo aponta o dedo, mas ninguém sai dele.

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Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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Fonte original: www.uol.com.br

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