IA sem Aperreio

Pix por limpar o wc e arrumar a cama: eles treinam robôs e fazem um extra

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Pix por limpar o wc e arrumar a cama: eles treinam robôs e fazem um extra

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Pessoas estão se gravando realizando atividades domésticas e ganhando dinheiro com isso. Apesar de a proposta parecer excêntrica, essas gravações são usadas para treinar robôs e podem gerar ganhos complementares.

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Dá para ganhar dinheiro mesmo?

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“Comecei após ver uma propaganda no Instagram sobre renda extra.” A publicitária Lais Fonseca, 36, de Belo Horizonte, resolveu testar após ver uma propaganda na rede social para ver se funcionava e incluiu até o marido. Ela realiza tarefas domésticas, enquanto ele, marceneiro, grava tarefas em seu local de trabalho.

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“Desde agosto, já ganhamos pouco mais de R$ 17 mil”, afirmou Lais. A razão da cifra alta, explica, são indicações —cada pessoa que começa a se gravar rende cerca de R$ 1,25, e ela diz ter indicado mais de 10 mil. Fora isso, há as gravações de suas atividades domésticas, que pagam cerca de R$ 15 por hora, e das tarefas profissionais do marido, que podem chegar a R$ 60 por hora. As imagens são usadas para treinar sistemas de inteligência artificial voltados à operação de robôs, um mercado que começa a ganhar força no Brasil.

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Já lavava meu banheiro de graça, e agora eu estou ganhando por isso.
Lais Fonseca, publicitária

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Homem fazendo trabalho de marcenaria gravando o procedimento com um celular preso a um suporte na cabeça
Homem fazendo trabalho de marcenaria gravando o procedimento com um celular preso a um suporte na cabeça Imagem: Divulgação/Flambra
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A empreendedora do ramo de beleza Gisele Souza, 38, de Cuiabá (MT), teve trajetória semelhante. Viu um vídeo no TikTok e começou a realizar as gravações em setembro. Nesse tempo, já ganhou R$ 800 fazendo atividades domésticas. Para ela, acaba sendo um extra, pois atua como designer de cílios e sobrancelhas em um estúdio.

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Penso assim: são atividades obrigatórias de uma dona de casa, e que você ganha para fazer. Brinco que o dinheiro que entra é para fazer feira, pagar um boleto. Não é um salário, mas um dinheiro a mais no orçamento.
Empreendedora do ramo da beleza Gisele Souza

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Como funciona essa gravação em troca de dinheiro

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Várias plataformas oferecem dinheiro para gravação de atividades por hora. Há opções, como Flambra, Kgen, Mimix, Hub, Claru, Remotasks, Toloka, entre outras. As plataformas pagam entre R$ 10 e R$ 35 por hora de vídeo de atividades domésticas.

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Após o cadastro, é preciso arranjar um suporte de cabeça e ter um dos smartphones requeridos. Geralmente, são celulares “avançados”, como iPhone 12 ou superior, Galaxy S21 ou superior, ou aparelhos da linha Pixel, do Google. A gravação é feita geralmente por um app chamado Minute e, nele, a pessoa informa para qual plataforma é. A exigência desses celulares mais sofisticados tem relação com sensores desses aparelhos; não é só a imagem que é captada, mas detalhes de profundidade do vídeo, por exemplo.

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E a gravação, como funciona? Antes de realizar a atividade doméstica, é preciso informar no app de gravação o que será feito (exemplo: limpar banheiro) e colocar o celular no suporte da cabeça; ao finalizar a tarefa, a pessoa tira o celular do suporte e encerra a gravação. Entre as tarefas possíveis estão, por exemplo, guardar compras, arrumar a cama, tirar o lixo do saco e trocar o saco, limpar o banheiro, varrer o chão, receber entrega na portaria, guardar brinquedos etc.

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Mulher lava louça enquanto usa suporte de cabeça com celular fixado para gravação
Mulher lava louça enquanto usa suporte de cabeça com celular fixado para gravação Imagem: Divulgação/Hub

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Com a gravação feita, o arquivo de vídeo vai direto para os servidores da plataforma. Segundo os trabalhadores desse ramo, na maioria das vezes os vídeos são aceitos. As exceções são quando aparece o rosto de alguém, documentos ou por má iluminação. Depois de o arquivo subir, é informado quanto tempo foi contabilizado. Os pagamentos ocorrem em diferentes frequências, mas o mais comum é por Pix e semanal.

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Isso é novo?

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O uso de gravações de tarefas domésticas para treinamento de sistemas de IA não é novo. “É muito comum na Índia, Vietnã, Malásia e Estados Unidos, e em meados de julho deste ano começaram a aparecer várias intermediadoras no Brasil”, afirma Matheus Viana, coordenador do Latraps (Laboratório de Trabalho e Plataformização e Saúde) e professor da UEM (Universidade Estadual de Maringá).

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Para Viana, apesar de a prática trazer benefícios, é necessário discutir o tema, pois trata-se de uma atividade precária. Ele cita como exemplo uma plataforma que começou cobrando R$ 25 por hora, e depois de dois meses já está em R$ 12,50. Fora o incômodo de realizar as atividades com um celular preso à cabeça e a transformação em recursos comercializáveis de saberes domésticos.

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Essa diminuição drástica [de valor da atividade] é um indicativo de precariedade e opacidade do mercado de dados de IA. Os trabalhadores têm pouca visibilidade do valor real da sua contribuição e, por isso, não têm condições de negociar as condições do trabalho.
Matheus Viana, professor da UEM

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Sérgio Lourenço, chefe de marketing da Hub e fundador da Flambra (as duas empresas são integradas), discorda da precariedade da atividade. “Nossa ideia é gerar oportunidade de renda. Para muitas pessoas, especialmente aquelas que enfrentam barreiras para ingressar no mercado de trabalho tradicional, oportunidades como essas podem fazer uma diferença significativa. Estamos falando de pessoas que precisam sustentar suas famílias, quitar dívidas ou simplesmente conquistar sua independência financeira”, disse. Sobre a questão de preço, Lourenço diz que o valor varia conforme a demanda dos clientes e há uma questão de oferta e procura: quanto mais comum for uma atividade, menos ela deve pagar.

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Por que gravar as mãos? Onde isso é usado?

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Gravação de mãos é importante para treinar “inteligências artificiais” físicas (sistemas capazes de interagir com o mundo físico) para serem futuramente usadas em robôs. Segundo André Chiovato, engenheiro elétrico e coordenador do curso de graduação em IA da Fiap, isso é uma onda global. “Os chatbots aprenderam com material da internet, e essas gravações são o equivalente para entender como mãos humanas manipulam objetos”, afirma. “Como nos chatbots, são necessárias fontes diversas. Uma cozinha na Índia ou no Brasil é diferente de uma nos EUA, e os modelos usados por esses robôs precisam dessa variedade de exemplos para aprender a executar tarefas.”

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As gravações são usadas para modelos de IA extraírem a sequência das tarefas e observarem a manipulação. Esses sistemas reparam em como as mãos seguram cada objeto e como a pessoa se adapta a ambientes desorganizados. Esse material costuma servir para a fase inicial de treinamento dos sistemas, e depois é refinado com dados do próprio robô.
André Chiovato, coordenador do curso de graduação em IA da Fiap

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Depois, equipes humanas rotulam e classificam os vídeos para que possam ser usados pelos sistemas. As gravações são classificadas e verificadas. Por fim, as imagens podem ser combinadas e criam um banco de dados “qualificado”, que vai ser essencial para o desenvolvimento de sistemas de IA, segundo Viana, do Latraps.

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Não há clareza sobre quem são os clientes finais dessas gravações. As entrevistadas só dizem que as plataformas informam que os vídeos serão usados no treinamento de sistemas de IA para robôs. “Os trabalhadores têm pouca ou nenhuma informação sobre as aplicações previstas, por quanto tempo seus dados serão utilizados, ou se haverá compartilhamento com outras empresas”, afirma Viana. Sérgio, da Hub, diz que as gravações vão para laboratórios de inteligência artificial ou grandes fabricantes de robôs humanoides.

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Mulher indiana se grava cortando fruta para treinar robôs
Mulher indiana se grava cortando fruta para treinar robôs Imagem: R.Satish Babu/AFP

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Outra questão levantada por pesquisadores é a transparência na definição dos pagamentos. Como os contratos costumam ser intermediados por plataformas digitais, os participantes geralmente não têm acesso a informações sobre quanto seus dados são vendidos nem sobre os critérios usados para aumentar ou reduzir o valor das tarefas. “Quem grava, recebe um pagamento único pela cessão dos direitos. A empresa de dados pode incorporar o aprendizado do modelo, que vira ativo permanente da empresa. Não há royalties nem participação para quem gravou”, diz Chiovato.

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Independentemente de para onde vão as gravações, quem se dedica à atividade não está muito preocupado com isso. “Não é a minha primeira renda e tem me ajudado a tirar sonhos do papel”, diz Laís, que está bancando a reforma da casa e já até matriculou o filho em uma escola particular com o dinheiro que ganhou. “Não é uma renda que vai se manter por muitos anos, é uma oportunidade para quem precisa de dinheiro.” Gisele pensa de maneira semelhante, reforçando que se trata de um dinheiro adicional e “fácil de obter”, ainda mais por realizar atividades que ela já faria no dia a dia.

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Fonte original: www.uol.com.br

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